Quinta-feira, Julho 09, 2009



Pensava que tudo estava definitivamente perdido.
Por ela, por ele, por ambos.
O amor de outrora, náufrago no mar de conflitos, parecia afogado para sempre.
Ainda assim, lançou-se ao resgate, apesar de tudo parecer inanimado.
Já aguardava a confirmação da morte, o atestado de óbito do sentimento dos dois.
Em vão, tentava desesperadamente preparar-se para o luto.
Contudo, foi sacudida por uma onda de surpresa.
Em meio a tanta turbulência, um caminho de flores: no portão, no corrimão da escada, na porta, espalhadas pela casa.
Ainda havia vida apesar da tormenta.
O dilúvio, agora, escorria de seus olhos, de seu peito, de sua alma e um mundo de água salgada inundava-a por dentro.
Nascia uma tempestade de rosas e de esperança.

Quarta-feira, Junho 17, 2009



TRATO


"vamos combinar, então, que da próxima vez eu abandono esse papel de santa. nada de coração, sentimento ou paixão. nada dessas palavras que a gente encontra em versos e poesias de cartão mal escrito. fica combinado que, da próxima vez, você vai se divertir em outro lugar. vai torcer contra mim sentado em outra arquibancada. rir de outra piada. fica assim, então, combinado. eu não choro mais de madrugada, não me chamo mais de tonta em frente ao espelho, não borro mais com a mão o meu batom vermelho. não puxo os meus cabelos. não brigo mais. nada de gritos e palavrões. nada de portas batidas rachando as paredes aos poucos. nada de perseguições. fica combinado que eu não acredito mais em bonecos de noivos em cima de bolo cheio de creme. em fatia cortada de baixo pra cima. em goles de bebida em copos cruzados. combinado, então. eu não me derreto mais com flores no meio do dia. não acredito mais em frases quase dentro da orelha. em lambidas no pescoço. em telefonemas. não me admiro mais com laço grande em caixa de presente. fica combinado que não sou mais a boazinha, a paciente. a partir de hoje, pedra no lugar do coração. fica combinado que não haverá mais sofrimento, dor, envolvimento. a partir de hoje, abandono de vez o papel de santa. serei puta. a partir de hoje, nem beijo na boca."
(Eduardo Baszczyn)

Quarta-feira, Abril 01, 2009

porque quando tudo me sangra por dentro..é ele quem me acalma a alma , Caio...

então me vens e me chegas e me invades e me tomas e me pedes e me perdes e te derramas sobre mim com teus olhos sempre fugitivos e abres a boca para libertar novas histórias e outra vez me completo assim, sem urgências, e me concentro inteiro nas coisas que me contas, e assim calado, e assim submisso, te mastigo dentro de mim enquanto me apunhalas com lenta delicadeza deixando claro em cada promessa que jamais será cumprida, que nada devo esperar além dessa máscara colorida, que me queres assim porque é assim que és e unicamente assim é que me queres
(Caio Fernando Abreu)

Me doem essas esperas...


"Não, não me diz que sente. Você tem mais planos, vai em frente.
Não me torture. Não simule. Não me cure de você.
Quem sabe dá certo? Quem sabe dá tempo? Deixa o amanhã dizer"

Terça-feira, Março 31, 2009

Tempo...



Quero o tempo devagar
Para te poder amar
Intensa e ardentemente
Por perto não quero gente
Quero espaço aberto, ar
Para te poder abraçar
Afagar, beijar, beber
Quero ver-te a tremer
Louco de excitação
Quero ter-te sempre à mão
Por nada te quero perder.

Domingo, Fevereiro 15, 2009



Você poderia ter gritado o que queria, quebrado garrafas, atirado copos contra as paredes. Poderia ter feito ameaças, rasgado a minha roupa, ter-me tido à força. Mas não. Você preferiu ser compreensivo, engolir humilhações, habituar-se à indiferença. Preferiu cimentar-se e esconder-se sob um escudo inabalável. Agora eu sei que a dureza era só fachada. No seu interior, abalos sísmicos e múltiplas rachaduras. Tudo desmoronou. E da tragédia do terremoto, entre os seus escombros, nem eu sobrei.

Quarta-feira, Outubro 29, 2008

Porque o fim é sempre igual, sempre

Já é chegada a hora
a mágoa falou mais alto que o amor
e eu tenho que partir...
porque te amar dói



Ela chegou e disse para ele:
“Estou indo embora”
Ele perguntou:
“Por que?”
Ela respondeu:
“Para sair do caminho”.
“Que caminho?”
“O teu.”
“Cansaste de andar ao meu lado?”
“Não, cansei de andar sozinha”


Tchau
Catedral

Me cansei dos teus desenganos
Não entendo a tua fala
Nossa casa está vazia
Hoje à noite é o meu dia...

Nossa vida virou novela
E eu não sou nenhum personagem
Que se enquadre em teus delírios
Quero andar nas ruas e sentir frio
No calor, quero estar sozinho...

Me cansei das tuas mentiras
Eu não quero esse dia-a-dia
Não consigo fazer promessas
Tenho apenas o que me resta...

O teu jeito não me abala
Não me sinto bem no teu jogo
Vou voar mais alto que as nuvens
Entender de vez esse meu vazio
Te encontrar prá não ser sozinho...

Tudo é sempre a mesma coisa
O mesmo jeito, toda vez
Tudo é muito relativo
E a distância, já nos fez
Somos serra e litoral
Nosso final, é simples
Tchau!...

Me cansei das tuas mentiras
Eu não quero esse dia-a-dia
Não consigo fazer promessas
Tenho apenas o que me resta...

O teu jeito não me abala
Não me sinto bem no teu jogo
Vou voar mais alto que as nuvens
Entender de vez esse meu vazio
Te encontrar prá não ser sozinho...

Tudo é sempre a mesma coisa
O mesmo jeito, toda vez
Tudo é muito relativo
E a distância, já nos fez
Somos serra e litoral
Nosso final, é simples
Tchau!...

Terça-feira, Setembro 30, 2008



Tenho cada vez mais medo que a loucura me siga nas ruas,
e me persiga se eu começar a correr.
Que vá comigo para casa na noite dos dias,
se instale no meu riso e o torne estridente,
descubra o meu sorriso e o destrua,
encontre as minhas palavras e as separe em letras,
conheça os meus amigos e os torne sérios e conscientes,
decifre os meus códigos e me roube,
encontre as minhas paixões e as ridicularize,
pressinta os meus sonhos e adivinhe os meus pesadelos
e saiba mais de mim que eu.
Tenho a incerteza dos loucos,
o estranhamento dos sábios, a surpreza dos insurpreendíveis,
os desejos dos homens.
Levo tudo comigo na pele e nos dias cheios de horas,
minto à verdade e faço-me cumplice da mentira desvirtuada.
Estou sentada nas possibilidades e conheço a perguiça das coisas.
Não persigo nada do que é bom, espero por nada, conheço o que não interessa,
deixo os dias passarem,
as pessoas me abandonarem (sem nunca saberem se/que são importantes,
a loucura oposta).
Surjo de repente, assusto, fujo.
Escondo pandoricamente o mundo dos loucos: liberto o invertido da loucura,
mas aprisiono a loucura em mim como se fosse esperança
(porque ela é o que de bom não conseguimos libertar, largar, mostrar,
deixar ir, deixar ser).
É um estado que se prolonga, qualquer coisa que se arrasta aqui dentro, no escuro.